quinta-feira, 3 de março de 2011

Vida de discipulo


Não há acaso na vida do discípulo: há destino e há prova. A saída de cena de Maria foi simultânea à prova de João, podendo até dizer-se que o Mestre sabiamente utilizou a mesma força, libertando um e aprisionando o outro.

Para Maria foi o voo da alma finalmente ascendendo sobre a matéria densa e inerte. Para João, ao contrário, foi o confronto com o medo: primeiro da perda de Maria enquanto centro vital da sua vida, depois do trabalho conjunto agora impossível, finalmente de si próprio e da sua auto-imagem.

Consciente da sua insuficiência, e pela primeira vez em muitos anos em auto confronto com esse medo visceral que habita a criatura e que a presença de Maria, qual anjo protector, afastava, nu e incapaz de viver por si, sem centro vital, sem esperança, desconhecendo o futuro mas temendo a sua cobardia, João recuou para o limiar do mundo conhecido, do mundo amado.

Aí viveu o drama daqueles que sabem não ter esperança nem razão alguma para acreditar nela. Ao mesmo tempo consciente de si e incapaz de fazer face aos pequenos terrores a que o medo maior dá corpo, João sentiu a alma em perigo e oscilou.

Adivinhando as carências imensas subtilmente escondidas pelos hábitos de uma vida, mas sabendo também que em lugar algum (ou ser algum) poderia haver lugar a uma substituição do bem agora perdido, João optou pela única solução que a vida lhe oferecia: confessar-se, desmascarar o ser, romper a ténue cortina que o separava de si.

Armado assim, simultaneamente dado ao mundo dos outros e neles não confiando, mas também por isso já nada esperando, João penetrou nessa dimensão que separa e mantém os mundos coesos: a do espírito que é capaz de se ver sem mascara e sem delírio.

Aí, liberto de tudo que o corpo ama e o coração anseia, João foi finalmente canal daquele que o enviou e cujo nome ainda ninguém nomeou. Nessa condição permanece, simultaneamente fiel a si próprio e ao destino que encarnou.

Esta é a história de João, sendo a de Maria o reflexo mais alto desta. Mas sobre Maria ainda nada foi escrito, excepto que existiu e passou.

24 de Março 2004
JC

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